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A montanha, aos olhos vívidos da criança sentada próxima à mulher, era um grande território, onde hortas gigantes eram plantadas e eventualmente esmagadas pelo gigante dos pés grandes, daquela história vocês-sabem-bem-qual, visto que todo mundo já foi apresentado ao Pé Grande. E não muito distante dali, ambas, mulher e criança, passam rapidamente enquanto a figura da montanha move-se pela janela do trem como se esta fosse uma espécie de Natureza televisionada.

Na maior parte do tempo, penso eu, sou a criança. Não, digo, na maior parte do tempo, eu sou a mulher; é, a mulher com a criança do lado e devo tomar conta dela até que seus pais venham. Mas alguns não vem e me preocupo com estes, porque eles, também como a criança, precisam de uma mão, uma ajuda dessas pra poderem vir. Será que estes ou outros virão? Não se pode esperar para sempre.

Ora, são muitos que pagam passagem para que as crianças sejam entregues ao Trem do Acolhimento, que as conduz à casa das pequenas gentes que pouco sabem sobre os contos de fada de hoje. Fossem dos antigos contos*, quando as situações eram contadas com detalhes mórbidos de infortúnios de modo mais “cru”, quem sabe até saberiam e poderiam perceber a semelhança com suas próprias vivências de modo mais acurado.

Dia desses, deparei-me com uma das crianças entregues ao Trem que atendia pelo nome Rayana e que contava um conto assim: “era uma princesa que se casou com um príncipe que a jogou ribanceira abaixo e depois pediu desculpa, e depois a jogou da escada e pediu desculpa, e depois ela morreu e ele pediu desculpa pra pedra do caixão”. Eu redargui com uma pergunta: “pedra do caixão?” E ela jurou que, nesta história, tinha uma pedra que era a fiel representação da pedra filosofal que tanto procuravam no mundo.

Eu, que de pedra filosofal conhecia apenas a de Harry Potter, não tinha resposta mais satisfatória que perguntas e silêncio ao conto da menina. Dizem que o adulto tem a função principal de ensinar a criança. Mas aquela menina tinha toda uma pedra filosofal em cima de um caixão. O que consegui acrescentar à sua história depois de suas explicitações foi o silêncio.

(Schiii.) Lá fui eu. Quando nessas situações em que se pronuncia algo de impacto e, então, sobrevem um silêncio, vocês já devem ter ouvido alguém dizer: “mas que silêncio fúnebre!” Eu já tinha ouvido isso cerca de duas vezes antes dessa menina repeti-lo pela terceira, logo depois de me contar a sua história e se deparar com minha cara de tatu-bola prestes a se enterrar na areia.

Rayana disse-me que eu precisava perguntar-lhe a sua idade e seus possíveis apelidos, porque isso seria mais importante que contos de fada.

Eu não lhe perguntei a sua idade, porque mesmo que me dissesse não acreditaria que fosse tão pequena. Como me prolongava no meu silêncio, sentada ali no Trem do Acolhimento, ela me propôs a brincadeira de que eu fingisse que ela era bem pequena e que eu era a mãe dela. Então, dizia: “cuida de mim!” E eu, entrando na brincadeira, cuidei de mandar que fosse fazer os deveres de casa, que fosse jantar, que fosse dormir… Assim, brincava eu. E parecia que só assim eu podia ser a adulta e ela a criança: no faz-de-conta que não tinha fadas.

Tinha os meus receios com essa menina. Não era incomum que nos fossem entregues no Trem do Acolhimento crianças que não podiam ficar com os familiares que violaram seus direitos de alguma forma ou que, por algum motivo ou por outro, não pudessem ou não quisessem ficar com elas, que alguns desses infantes e mesmo adolescentes tivessem modos tão “adultecidos” e que me portar como adulta diante delas fosse, por vezes, travar um diálogo sôfrego com tudo o que tinham como representação de adulto.

Em dado momento, foi essa menina vasculhar sua trouxa para pegar folha de papel e caneta e disse que brincaria comigo de “espiões” que se comunicavam por telegrama.

Eu era espiã no Brasil e ela no Japão. Ela disse que eu contava com a sorte de estar no Brasil, porque era terra conhecida, sendo que o Japão era pra ela terra de ninguém, pois nada conhecia daqueles territórios longínquos.

Cantei-lhe uma canção japonesa de um corinho bastante conhecido em português e registrei em “telegrama” a letra em Português.

Ela guardou o papel no bolso, enquanto o Trem chegava à estação próxima a casa. Ela, então, desceu do vagão mais escuro cantarolando uma parte do corinho. Não se despediu; continuou andando, acompanhada por alguém que iria conduzi-la a essa casa que chamam de lar temporário. Enquanto a ouvia cantar, por algum motivo, lembrei-me de Norah Jones e sua música “She”:

“She, she came from the land of the cotton,
Land that was nearly forgotten by everyone,
(…) Oh, but she sure could sing,
Oh, she sure could sing.”

Eu que já antes havia estado nesse mesmo vagão ao lado de outros infantes, agora me coloco de volta em direção à cidade de Conchas, donde surgem os traslados dessas pequenas gentes que tem que passar pelo Trem do Acolhimento.

“Como funciona? Por que essas crianças não podem ficar em Conchas?”, pergunta o condutor.

A resposta: “pequena Ana diz que é por causa dos piolhos. Pra menina Jéssica, é porque fica doente. Pra Justiça, a família não pode protegê-las. Por fim, elas têm de ser conduzidas até o Lar Temporário que fica ao pé da Montanha do Norte.”

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* Os contos tradicionais teriam, por vezes, finais tristes, pois se acreditava que esta era uma forma de educar para a vida, conforme visto aqui.

P.S.: quando violados pelos responsáveis os direitos da criança e do adolescente versados pelo ECA, há o desencadeamento de uma série de trâmites que vão desde o acionamento do Conselho Tutelar até o acolhimento da criança/adolescente em Casas de Acolhimento (antigamente denominados “abrigos”). Ali, recebem acompanhamento de uma equipe, enquanto o processo é tramitado na Justiça. Hoje, a nova lei de adoção preconiza que as crianças deverão esperar por no máximo 2 anos em abrigos. Durante esse período de institucionalização, avalia-se se deverão voltar para responsabilidade da família natural ou extensa, ou se passarão a fazer parte do Cadastro Nacional de Adoção. Dentre os motivos pelos quais um infante ou adolescente possa ser entregue a Casas de Acolhimento, além de abandono dos pais, morte destes, não controle sobre o filho (usuário de drogas, por ex.) e violação de direitos em geral, a pobreza, segundo especialistas, ainda vem à baila, muito embora a lei atualmente estabeleça que esta não deva ser uma razão para o acolhimento.

P.S.2: o post foi inspirado por uma experiência de trabalho em Casa de Acolhimento.

P.S.3: em Corumbá/MS, há uma insitituição de acolhimento para bebês que fica nas cercanias de um monte.