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You cannot find peace avoiding life, Leonard. (Virgínia Woolf a Leonard, em As Horas)

 

Airol embarcava nas ondas sonoras de Jan A.P. Kaczmarek. Dentre as árvores, surgia a figura magrela do reitor Marcel tentando ficar em surdina. Ele indicou um cavalo para Airol. Era negro e sua pelugem brilhava. Parecia manso e forte.

O reitor assoviou num assovio discreto, melhor percebido como um murmúrio esdrúxulo. O cavalo sumiu floresta adentro, levando consigo a menina: mudança de plano prevista em Carpe Diem.

Enquanto Airol via-se empoleirada na poltrona verde de uma saleta que ficava logo ao lado da grande sala principal, uma reunião extraordinária estava sendo realizada. O reitor abriu a porta da saleta e entregou à Airol uma folha de papel reaproveitado, dobrada quatro vezes. Pediu que ela lesse o que havia na folha quando em Carpe Diem. Ofereceu-lhe a mão, ajudando-a a levantar-se: já era hora de partir. Airol não questionou, mas lançou-lhe um olhar suplicante.

O reitor deu tapas leves no cavalo negro, que desapareceu, levando o não dito e o que haveria de ser dito em celulose:

Há tempos em que é fácil criar coisas que façam evitar a vida. Coisas que vêm com o prazer. Prazer para o momento.

Relacionamentos imaginários. Felicidade imaginária. Tudo para o momento. Tudo para evitar a vida.

Coisas imaginárias que poderiam tornar-se realidade, você diz. Tudo que você faz é criar coisas. Criar para não viver a vida real.

Entretanto, “você não pode encontrar a paz evitando a vida, Leonard”, ela diz. Mas quem quer paz tendo muitos pequenos prazeres com a imaginação?

Só uma ilusão. Uma boa ilusão.

A vida real é bonita. E feia. Isso deve ser aceito para que ela traga alguma paz. A vida real pode ter mais beleza com a imaginação. Mas há uma decisão difícil a ser feita. E ela se refere a que tipo de imaginação que deve ser escolhida.